Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) concluiu que uma alimentação com poucas vitaminas A e C pode intensificar os sintomas do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) em crianças. Estima-se que 7% dos menores de idade em Portugal tenham essa condição.
Em comparação com crianças neurotípicas, cujo desenvolvimento neurológico segue o padrão considerado comum, os pacientes com TDAH apresentaram níveis menores de gorduras saudáveis e selênio no organismo, além de deficiência de vitaminas A e C. “Nutrientes como a vitamina A, a vitamina C e o selênio têm em comum propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias já conhecidas e conseguem promover a homeostase em relação ao estresse oxidativo no organismo”, explica ao JN a nutricionista pediátrica Sofia Pinto, primeira autora do estudo.
Essas propriedades são relevantes porque pesquisadores estudam a possibilidade de que uma neuroinflamação de baixo grau, também associada ao estresse oxidativo, esteja na base do transtorno. Dessa forma, o consumo reduzido de vitamina C pode levar ao aumento dos níveis de hiperatividade e impulsividade.
A deficiência de vitamina A também pode estar relacionada a esse aumento, além de se associar a níveis mais elevados de desatenção e a problemas sociais. Já níveis baixos de selênio podem estar ligados a dificuldades de socialização, comportamentos agressivos e até ao aumento de queixas somáticas, que são manifestações de questões mentais na forma de sintomas físicos.
Os efeitos da nutrição no TDAH
A deficiência nutricional não é a causa do TDAH, mas pode intensificar sintomas característicos do transtorno. “Este estudo, como a maior parte dos estudos existentes, não mostra causalidade; o que mostra é uma associação. Não podemos simplificar e dizer que agora as crianças têm TDAH porque se alimentam mal. Isso é simplificar demais um transtorno que é bastante complexo”, esclarece Joana Ferreira Gomes, coordenadora da pesquisa. Segundo ela, os dados coletados não são suficientes para determinar em que direção ocorre essa correlação.
Embora o TDAH tenha um componente genético bastante forte, ele não é suficiente para explicar vários casos e sintomas, o que levou à necessidade de investigar fatores ambientais. “A dieta é o que nos dá o substrato para o funcionamento do nosso organismo e, portanto, a ideia foi entender se havia alguma inadequação na alimentação que também pudesse contribuir para o agravamento de alguns sintomas”, explica Ferreira Gomes.
Formada por sete profissionais de áreas diferentes, a equipe da FMUP avaliou 76 crianças com idades entre seis e dez anos. Os pais preencheram um registro alimentar durante três dias e apresentaram fotografias. Depois, os pesquisadores analisaram detalhadamente os alimentos e examinaram todos os seus componentes nutricionais.
Como esses dados se aplicam à realidade
Os resultados podem ajudar no desenvolvimento de estratégias nutricionais direcionadas, integradas a uma abordagem multidisciplinar ampla do TDAH na infância. “Tentamos entender como podemos ajudar essas crianças e suas famílias”, conclui a coordenadora. Como o transtorno muda com o desenvolvimento do cérebro, as conclusões se aplicam à faixa etária estudada. Em setembro, a FMUP iniciará uma nova pesquisa voltada a adolescentes com TDAH.
A principal recomendação de Sofia Pinto é adotar uma alimentação equilibrada. “A absorção e a biodisponibilidade no corpo de suplementos vitamínicos nunca serão iguais às obtidas por meio dos alimentos”, alerta a nutricionista, ressaltando a diferença entre obter vitaminas e minerais pela alimentação e consumir suplementos. Ela também destaca a variedade de nutrientes benéficos, como as fibras, presentes nos alimentos que compõem uma dieta saudável e variada.
O que é o TDAH?
“O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade é o transtorno do neurodesenvolvimento mais comum e se caracteriza por níveis bastante elevados de desatenção, hiperatividade e impulsividade, com um impacto enorme no funcionamento e na qualidade de vida dos pacientes”, esclarece a coordenadora do estudo. Ela também inclui entre os sintomas as disfunções na regulação emocional e as dificuldades de socialização.
Cerca de 7% das crianças e dos jovens portugueses são afetados pelo transtorno. Estima-se que metade deles continue com a condição na vida adulta, embora os sintomas se manifestem de maneira diferente.
Alimentos que compõem uma dieta equilibrada
“Essencialmente, seguir os parâmetros da dieta mediterrânea” é a recomendação da nutricionista pediátrica Sofia Pinto. Peixes gordurosos e azeite são excelentes fontes de gorduras saudáveis, enquanto o selênio pode ser encontrado em alimentos como ovos, cogumelos e sementes. A vitamina C está presente principalmente em frutas e vegetais. Frutas e hortaliças também são ricas em vitamina A, assim como laticínios, peixes e frango.






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