Um relatório parlamentar publicado nesta quarta-feira recomenda proibir a venda de Red Bull, Monster e outras bebidas energéticas a menores de 16 anos. Relator do documento, o ex-ministro da Saúde Yannick Neuder alerta para os efeitos desses produtos entre adolescentes.
As bebidas energéticas poderão ser proibidas para estudantes do ensino fundamental? A proposta ganha espaço na Assembleia Nacional francesa. Segundo a RMC, que teve acesso ao relatório, a missão de investigação sobre a exposição dos jovens a bebidas energéticas e bebidas alcoólicas prontas para consumo apresenta seis recomendações.
Uma delas prevê a proibição da venda de energéticos a menores de 16 anos. As medidas deverão ser apresentadas por meio de emendas ao projeto de lei de financiamento da Seguridade Social (PLFSS) e de uma proposta de lei.
Criada no verão europeu, a missão é conduzida por dois deputados: Yannick Neuder, ex-ministro da Saúde, e a socialista Sandrine Runel. O grupo também ouviu Squeezie, cofundador da marca Ciao Energy, em uma audiência fechada em 20 de julho.
Riscos das bebidas energéticas para adolescentes
Em entrevista à RMC na manhã de quarta-feira, Yannick Neuder alertou que o consumo às vezes começa muito cedo. O deputado do partido Os Republicanos (LR), eleito pelo departamento de Isère, considera que as crianças são habituadas aos poucos a ingerir doses elevadas de cafeína.
Segundo ele, os efeitos de curto prazo podem incluir palpitações, ansiedade, alterações do sono e dificuldade de concentração. O parlamentar também menciona riscos de diabetes e hipertensão no longo prazo.
Neuder destaca ainda o forte crescimento do mercado, cujo faturamento teria subido de 180 milhões para 780 milhões de euros. Para ele, os mais jovens nem sempre enxergam essas bebidas ultraprocessadas, ricas em açúcar e aditivos, como alimentos não saudáveis.
A mistura com álcool é ainda mais preocupante. O deputado lembra que de 40% a 50% dos estudantes do ensino fundamental já beberam álcool. Como os energéticos reduzem a sensação de embriaguez, podem estimular o consumo de uma quantidade maior de bebida alcoólica.
Ele também pretende alertar os pais, que nem sempre conhecem a composição desses produtos. Segundo Neuder, muitos não sabem que oferecem aos filhos uma bebida “pior que a Coca em teor de açúcar e calorias”. Na prática, porém, a diferença é muito pequena: um Red Bull tradicional contém 11 g de açúcar por 100 ml, pouco mais que uma Coca-Cola, com cerca de 10,6 g. A principal diferença está na cafeína.
Os médicos chamam atenção sobretudo para o sono. O cardiologista François Carré explica à RMC que essas bebidas podem impedir que os jovens durmam adequadamente. A privação de sono resultante diminui a capacidade de atenção e pode prejudicar o desempenho escolar. Ele também pede que os pais deem o exemplo e evitem consumir energéticos em casa.
Em alguns casos, o consumo pode ter consequências fatais. Uma emenda apresentada no âmbito do PLFSS 2026, mas rejeitada ao final, lembrava que a Agência Francesa de Segurança Sanitária (Anses) havia registrado a morte de uma adolescente de 16 anos, para a qual a relação com o consumo de energéticos foi considerada “muito provável”.
Adolescentes estão céticos
Ouvidos pela RMC, alguns adolescentes demonstram pouca confiança em uma proibição. Para eles, a latinha já faz parte da rotina. Um deles diz não ser dependente, mas reconhece que a medida dificultaria sua vida.
Duas adolescentes admitem que essas bebidas fazem mal à saúde. Outra questiona a eficácia da regra: ela simplesmente pediria ao irmão que comprasse por ela e acha difícil imaginar que operadores de caixa exijam um documento de identidade para vender um Red Bull.
O mesmo argumento apareceu na Suíça, onde o Parlamento do cantão de Valais aprovou uma moção para proibir bebidas energéticas a menores de 16 anos. Contrário à medida, um parlamentar da União Democrática do Centro (UDC) avaliou que a proibição “não resolverá o problema, apenas o adiará”.
Quebec, Noruega e Inglaterra já agem
Com uma lei desse tipo, a França não seria o primeiro país a regulamentar a venda de bebidas energéticas. Na Noruega, a proibição da venda a menores de 16 anos já está em vigor desde 1º de janeiro de 2026. Em Quebec, o governo apresentou um projeto de lei em junho, por considerar os energéticos “fáceis demais de serem adquiridos pelos jovens”. Aprovado em 11 de junho, o texto deve entrar em vigor em dezembro.
O Instituto Nacional de Saúde Pública de Quebec havia apoiado o projeto. Embora ressalte que os riscos dependem em grande parte de fatores individuais, o órgão considera que essas bebidas “não deixam de ter consequências para a saúde”.
A Inglaterra adotará a medida em abril de 2027. Em julho, o governo britânico confirmou a proibição da venda a menores de 16 anos, tanto em lojas quanto pela internet, de bebidas com mais de 150 mg de cafeína por litro, como Red Bull e Monster. Para a ministra da Saúde Pública, Sharon Hodgson, esses produtos “não devem estar nas mãos das crianças”.
Bebidas alcoólicas prontas também são alvo do relatório
Uma particularidade do relatório francês é que ele também abrange coquetéis alcoólicos com teor superior a 12%, vendidos em latas. Entre as marcas mais populares entre os jovens está, por exemplo, Vody, uma mistura de vodca, açúcar e ingredientes energéticos, como cafeína e taurina, vendida em latas com teor alcoólico de até 22%. Os deputados propõem a aplicação de um imposto para desestimular seu consumo.
As demais recomendações incluem multa de até 50.000 euros pela venda de álcool a menores, fiscalizações em lojas com jovens clientes ocultos, proibição da publicidade de álcool na internet e inclusão de uma mensagem de prevenção nas embalagens de bebidas com teor alcoólico superior a 18%.
As propostas ainda terão de passar pelos debates parlamentares do outono europeu. Portanto, por enquanto, nada está decidido.






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