Pular para o conteúdo
Notícias

Barras de proteína de insetos surpreendem consumidores hesitantes

Jovem com camiseta preta comendo barra de cereal em sala de aula com outras pessoas ao fundo.
Neste artigo
  1. Um teste com um diferencial
  2. Resultado diferente do esperado pelos pesquisadores
  3. Por que isso importa além do laboratório
  4. A barreira psicológica dos alimentos à base de insetos
  5. Limitações do estudo

A maioria das pessoas que hesita em consumir alimentos à base de insetos acaba gostando mais do que imaginava e, após a experiência, demonstra maior abertura à ideia.

Em um novo estudo, pesquisadores registraram a atividade cerebral e a frequência cardíaca de participantes enquanto eles provavam barras de proteína de insetos.

A equipe observou que consumidores receosos se mostraram mais curiosos e envolvidos do que o previsto e que muitos escolheram a barra de insetos em vez de uma barra de cereais convencional quando questionados diretamente. Ao que tudo indica, o principal obstáculo é a expectativa.

A pesquisa foi conduzida por Andreia C. B. Ferreira, doutoranda da Universidade da Beira Interior, em Portugal.

Os especialistas reuniram questionários tradicionais e ferramentas de neurociência para avaliar como os participantes reagiam de fato - fisiologicamente, e não apenas em suas respostas verbais - ao consumir produtos à base de insetos pela primeira vez.

Um teste com um diferencial

O estudo contou com 38 adultos em Portugal, todos com idades entre 18 e 55 anos, e nenhum deles havia consumido alimentos à base de insetos anteriormente.

Antes da degustação, os participantes responderam a um questionário sobre seu conhecimento e suas opiniões a respeito de produtos de insetos.

Em seguida, provaram tanto uma barra de proteína de insetos quanto uma barra de cereais convencional, enquanto os pesquisadores acompanhavam a atividade cerebral por eletroencefalografia e a frequência cardíaca por eletrocardiografia.

Para verificar quanto as expectativas influenciavam a reação, os pesquisadores separaram os participantes em dois grupos.

Parte deles recebeu a informação correta sobre o que estava comendo. Aos demais, foi dito que consumiam uma barra de cereais, quando na verdade recebiam a barra à base de insetos.

Os dados fisiológicos indicaram que os participantes se tornaram mais atentos e envolvidos ao consumir a barra de proteína de insetos - e, sobretudo, esse padrão também surgiu entre aqueles que não sabiam o que estavam ingerindo.

A reação não era apenas consequência de nojo antecipado ou ansiedade diante da novidade. Havia algo no próprio alimento que estava sendo percebido.

Resultado diferente do esperado pelos pesquisadores

A equipe iniciou o estudo prevendo pouco conhecimento sobre o tema, uma preferência marcante pela barra de cereais e reações fisiológicas intensas - associadas a desconforto ou aversão - diante do produto de insetos. Porém, os resultados não corresponderam exatamente a essas expectativas.

“Os resultados foram muito surpreendentes”, disse Ferreira.

“Este foi realmente um resultado inesperado, pois a literatura nos dizia que os consumidores tendem a rejeitar esses alimentos novos. Os resultados nos mostram a relevância dos experimentos de degustação para promover essa nova alternativa.”

Quando os participantes foram questionados diretamente sobre qual barra preferiam após provar ambas, a barra de proteína de insetos ficou à frente no resultado geral. Não é um desfecho que a maioria das pessoas teria antecipado.

Por que isso importa além do laboratório

A proteína à base de insetos vem conquistando espaço na Europa há algum tempo como fonte alimentar sustentável.

A União Europeia reconheceu oficialmente os insetos como novos alimentos em 2018 e, desde então, autorizou diversas espécies para consumo - larvas-amarelas-da-farinha, gafanhotos-migratórios, grilos-domésticos e larvas-menores-da-farinha.

Os argumentos em favor da sustentabilidade estão razoavelmente bem estabelecidos. A criação de insetos demanda muito menos terra, água e ração do que a pecuária convencional e gera uma fração das emissões de gases de efeito estufa.

A barreira psicológica dos alimentos à base de insetos

A aceitação do consumidor sempre foi o gargalo.

Especialmente nos países ocidentais, onde insetos não fazem parte da alimentação tradicional, a barreira psicológica costuma ser considerável - as pessoas expressam resistência mesmo sem nunca terem provado o produto.

Este estudo indica que essa resistência é mais frágil do que parece. Na prática, a degustação pode ser uma das ferramentas mais eficazes disponíveis para mudar atitudes.

Dizer às pessoas que os insetos são nutritivos e sustentáveis não parece alterar muito suas opiniões. Permitir que experimentem uma barra saborosa, sem enfatizar demais seus ingredientes, pode funcionar melhor.

“Do ponto de vista prático, os resultados revelam a necessidade de ampliar a comunicação sobre alimentos à base de insetos como alternativas e novidades no mercado europeu”, disse Ferreira.

“A comunicação não deve apenas posicionar os alimentos à base de insetos como ‘novos’, mas também declarar claramente suas potenciais vantagens nutricionais e relacionadas à sustentabilidade em comparação com outras alternativas de proteína.”

Limitações do estudo

Os pesquisadores são cautelosos quanto às limitações do trabalho. Trinta e oito participantes em um único país representam uma amostra pequena, e Portugal tem seu próprio contexto cultural em relação à alimentação e às novidades.

Ainda é uma questão em aberto como consumidores de diferentes países, com tradições alimentares distintas e variados níveis de exposição ao debate sobre sustentabilidade, reagiriam.

Ainda assim, vale refletir sobre a direção apontada pelos resultados. A reação de nojo diante de alimentos à base de insetos costuma ser tratada como um fato cultural imutável.

Esta pesquisa sugere que ela se parece mais com uma primeira impressão - e que a experiência concreta tem uma chance razoável de transformá-la.

Em alta agora

Mariana Ferreira Alves

Nutricionista e consultora gastronômica especializada em alimentação prática, lanches equilibrados e empreendedorismo no setor de food service. No lilianlanches.com, compartilha conteúdos sobre receitas, tendências de lanches, qualidade dos ingredientes e estratégias para tornar cada refeição mais saborosa e acessível.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário