Vladimir Putin assinou um decreto que coloca as operações russas da Auchan e da Nestlé sob administração externa temporária, em benefício de uma empresa pouco conhecida de Moscou. A medida reacende o debate sobre o destino das companhias ocidentais que permaneceram na Rússia desde 2022.
Desde a invasão da Ucrânia, Rússia e países ocidentais travam uma disputa econômica sem precedentes: de um lado, sanções; de outro, congelamento de ativos e retaliações. Até então, a maioria das multinacionais que ainda atuavam em território russo havia conseguido reduzir os prejuízos, diminuindo suas atividades sem perder o controle das subsidiárias locais.
A situação seguia relativamente estável, mas a assinatura de um novo decreto mudou esse cenário para as empresas ocidentais instaladas na Rússia. Entre as diretamente atingidas estão Auchan e Nestlé, que perderam o poder de comandar suas operações no país.
Decreto muda o controle das operações de Nestlé e Auchan
Assinado em 17 de setembro de 2026, o decreto presidencial transfere a gestão operacional das subsidiárias russas da gigante suíça de alimentos Nestlé, da varejista francesa Auchan e da rede de materiais para construção e reforma Lemana Pro, antiga Leroy Merlin na Rússia, para uma administração externa.
O comando dessas operações passa à L.E.V. Management, empresa registrada em Moscou e dirigida por Andrei Kraiuchkin, cuja estrutura acionária não é pública.
Na prática, os grupos ocidentais continuam sendo os proprietários legais de suas subsidiárias russas, mas deixam de decidir sobre a gestão cotidiana, incluindo nomeações, estratégia comercial e fluxos financeiros.
No caso da Nestlé, a medida atinge especificamente os ativos mantidos por meio das empresas Nestlé Deutschland AG e Société des Produits Nestlé, entre eles as subsidiárias operacionais Nestlé Russia e Nestlé Kuban.
O decreto também abrange duas prestadoras de serviços logísticos responsáveis pelo funcionamento das cadeias de abastecimento dessas redes no país: FM Logistics e Bati Logistics. Assim, a decisão vai além de lojas e marcas e alcança parte da estrutura logística de suas operações russas.
A iniciativa integra um processo iniciado em 2023, quando um primeiro decreto autorizou a administração temporária de ativos de empresas originárias de países considerados “não amistosos”.
A abertura do procedimento contra a Nestlé teria sido provocada por um pedido apresentado ao Kremlin pela empresa russa KS Logistika. A companhia acusava o grupo suíço de ter interrompido as exportações de sua produção russa e congelado investimentos destinados a ampliar a capacidade de suas fábricas locais. Para Moscou, portanto, seguir produzindo no país sem reinvestir ou exportar poderia justificar a retomada do controle das operações.
Duas gigantes com forte presença na Rússia
Ao longo dos anos, a Nestlé se consolidou como uma das principais empresas do mercado russo. Presente no país desde 1994, o grupo opera seis fábricas que produzem, entre outros itens, café Nescafé, chocolates KitKat e alimentos para bebês e animais.
Antes da escalada do conflito na Ucrânia, a operação russa empregava cerca de 7.000 pessoas. Em 2021, seu faturamento chegou a quase 2 bilhões de francos suíços, aproximadamente 2% da receita mundial do grupo. Embora financeiramente limitada para a Nestlé como um todo, a operação é uma questão sensível para sua imagem.
Em 18 de setembro, a Nestlé reagiu ao decreto, afirmando que não havia recebido aviso prévio das autoridades russas antes do anúncio e que estudava os recursos jurídicos disponíveis. A empresa disse que pretende tomar “todas as medidas necessárias para proteger seus direitos”, inclusive os de seus funcionários no país.
Por enquanto, o grupo suíço adota cautela. Não foi anunciada nem considerada uma saída, uma disputa judicial formal ou a suspensão das atividades. A Nestlé parece, assim, avaliar as opções disponíveis antes de se manifestar novamente.
A Auchan, por sua vez, chegou à Rússia em 2002 e opera cerca de 230 lojas em aproximadamente 100 cidades, por meio da Sogepar, holding da família Mulliez. Trata-se de uma das maiores redes estrangeiras de varejo ainda em atividade no país.
Já a Lemana Pro administra 112 lojas, cerca de 11 lojas exclusivas para pedidos on-line e seis centros de distribuição. Em dezembro de 2023, a rede passou do controle da francesa Adeo para o da Scenari Holding LP, uma entidade dos Emirados Árabes Unidos que detém 99,99% da empresa russa operadora Le Monlid.
A estrutura, criada à época para retirar juridicamente a antiga Leroy Merlin do controle francês, não foi suficiente para proteger a empresa do decreto de 2026.
Em comunicado conjunto divulgado na sexta-feira, 18 de setembro, os ministérios franceses das Relações Exteriores e da Economia condenaram a administração provisória, que consideram injustificada, e pediram às autoridades russas que revertam a decisão. Os ministérios informaram ainda que mantêm contato próximo com as empresas afetadas.
Uma situação já conhecida
Transferências forçadas desse tipo não são inéditas. Em 2023, a cervejaria dinamarquesa Carlsberg e o grupo francês de alimentos Danone passaram por uma situação semelhante.
Há, porém, uma diferença em relação ao cenário atual. Carlsberg e Danone negociavam ativamente uma saída completa do mercado russo quando o Estado interveio. Nestlé e Auchan optaram por permanecer no país, mantendo atividades reduzidas, sobretudo ligadas a produtos de consumo cotidiano. No fim, essa estratégia não as protegeu de uma intervenção das autoridades russas.






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