Para muitas pessoas, o dia começa com uma xícara de café e um rápido aumento da atenção. Poucas, porém, param para pensar no que ocorre no organismo após o primeiro gole.
Uma nova pesquisa publicada na Nature Communications revela que o café faz muito mais do que despertar. Ele modifica os microrganismos intestinais, afeta o cérebro e pode até alterar a maneira como você pensa e se sente.
Os cientistas começam agora a traçar esse elo complexo entre o intestino e o cérebro.
O café influencia os desfechos de saúde
Há muito tempo o café é associado a uma saúde melhor. Estudos o relacionaram a menores riscos de diabetes tipo 2, doença de Parkinson e alguns tipos de câncer.
Mesmo assim, o motivo por trás desses efeitos continuava incerto.
“O interesse público pela saúde intestinal cresceu enormemente. A relação entre a saúde digestiva e a mental também vem sendo cada vez mais compreendida, mas os mecanismos por trás dos efeitos do café nesse eixo intestino-cérebro permaneciam pouco claros”, afirmou o professor John Cryan, da University College Cork.
A equipe dele buscou identificar esses mecanismos ocultos.
Acompanhamento dos efeitos do café
Os pesquisadores recrutaram 62 adultos saudáveis. Metade consumia café regularmente, enquanto a outra metade não tomava café de forma alguma.
O estudo foi conduzido em três etapas. Primeiro, os cientistas compararam os dois grupos. Em seguida, os consumidores habituais ficaram duas semanas sem café.
Depois, os participantes foram novamente divididos. Um grupo tomou café com cafeína, e o outro consumiu café descafeinado durante três semanas.
Os voluntários realizaram testes de memória e desafios de estresse, além de fornecer amostras de sangue, saliva e fezes. Isso permitiu aos pesquisadores acompanhar mudanças no cérebro, no organismo e no intestino.
O café altera padrões de comportamento
O primeiro padrão evidente surgiu no comportamento.
Os consumidores regulares de café apresentaram maior impulsividade e reações emocionais mais intensas. Eles tendiam mais a agir depressa e a procurar novas experiências.
Essas características diminuíram quando deixaram de tomar café. Ao retomarem o consumo, os padrões voltaram.
Isso não indica prejuízo. Em vez disso, mostra que o café interage de forma detalhada com a regulação emocional.
O tipo de café também fez diferença. O café com cafeína reduziu a ansiedade e o sofrimento psicológico. Já o café descafeinado melhorou o sono e elevou a atividade física.
Isso demonstra que a cafeína é apenas parte da história. Outros compostos do café também afetam o organismo.
Café descafeinado é associado a melhor memória
Os resultados de memória acrescentaram outra camada à pesquisa. Participantes que tomaram café descafeinado tiveram desempenho melhor nos testes de memória. Eles conseguiram recordar informações com mais eficiência do que antes.
O café com cafeína não apresentou o mesmo benefício. Os pesquisadores sugerem que a melhora no sono e os níveis mais altos de atividade física no grupo do descafeinado podem explicar esse efeito.
O café remodela os microrganismos intestinais
O microbioma intestinal apresentou mudanças nítidas ao longo do estudo.
Quem tomava café tinha níveis mais altos de determinadas bactérias, incluindo Cryptobacterium curtum e espécies de Eggerthella. Os não consumidores exibiam um padrão microbiano diferente.
Quando o café foi retirado, essas diferenças começaram a desaparecer. Quando voltou a ser introduzido, as alterações reapareceram.
Os resultados indicam que o café molda diretamente a comunidade microbiana do intestino.
A mudança não se limitou aos microrganismos presentes. A atividade deles também se modificou.
Algumas bactérias relacionadas à digestão aumentaram com o consumo de café, enquanto outras diminuíram. Isso sugere que o café influencia o funcionamento dos microrganismos, e não apenas sua quantidade.
As substâncias intestinais mudam com o café
Os pesquisadores também avaliaram metabólitos, substâncias químicas produzidas pelos microrganismos intestinais.
Os consumidores de café apresentaram níveis mais baixos de compostos como o ácido indol-3-propiônico e o GABA. Essas substâncias têm papéis importantes na saúde do cérebro e do intestino.
A descoberta acrescenta complexidade ao quadro. O café favorece algumas vias, ao mesmo tempo que reduz outras.
O café contém centenas de compostos, entre eles a cafeína e os polifenóis.
“O café é mais do que apenas cafeína; é um fator alimentar complexo que interage com nossos microrganismos intestinais, nosso metabolismo e até nosso bem-estar emocional”, acrescentou o professor Cryan.
Isso explica por que o café com cafeína e o descafeinado geram resultados diferentes.
Níveis de estresse e inflamação
Apesar de crenças comuns, o café não elevou os hormônios do estresse.
Os níveis de cortisol permaneceram semelhantes entre consumidores e não consumidores. Mesmo nos testes de estresse, as respostas foram parecidas.
No entanto, as pessoas que tomaram café com cafeína se sentiram mais capazes de lidar com o estresse. As que consumiram descafeinado relataram emoções mais positivas.
O café também afetou o sistema imunológico. Consumidores regulares apresentaram marcadores de inflamação mais baixos. Quando interromperam o consumo, esses marcadores aumentaram.
O café com cafeína reduziu determinados sinais imunológicos. O descafeinado apresentou efeitos diferentes.
Em condições de laboratório, os dois tipos ajudaram a reduzir respostas inflamatórias.
Efeitos diferentes entre os indivíduos
O estudo também analisou os polifenóis, compostos vegetais presentes no café. As pessoas processaram essas substâncias de formas muito distintas. Algumas produziram muito mais metabólitos do que outras.
Essa variação depende, em parte, dos microrganismos intestinais. Cada microbioma processa o café à sua própria maneira.
Os achados não oferecem uma resposta simples. Tanto o café com cafeína quanto o descafeinado trazem benefícios. Cada um também envolve contrapartidas.
Os não consumidores apresentaram vantagens como menor impulsividade e pressão arterial estável.
Os resultados sugerem que o café não é uma solução universal. Seus efeitos dependem de cada indivíduo.
Café e a conexão intestino-cérebro
A principal mensagem do estudo é a importância da conexão entre intestino e cérebro.
O café altera a atividade microbiana, que então afeta os sinais cerebrais, o metabolismo e as respostas imunológicas.
“Nossos achados revelam as respostas do microbioma e neurológicas ao café, bem como seus potenciais benefícios de longo prazo para um microbioma mais saudável. O café pode modificar o que os microrganismos fazem coletivamente e quais metabólitos utilizam”, declarou o professor Cryan.
“À medida que o público continua pensando em mudanças alimentares para o equilíbrio digestivo adequado, o café também tem potencial para ser aproveitado como uma intervenção adicional dentro de uma dieta saudável e equilibrada.”
O café afeta vários sistemas do organismo
Esta pesquisa transforma a maneira como vemos o café. Ele não é apenas um estimulante - é uma mistura complexa que interage com diversos sistemas do organismo.
Cada xícara afeta os microrganismos, a química cerebral e os sinais imunológicos.
O estudo ressalta como hábitos diários moldam a biologia interna. Até uma rotina simples pela manhã pode influenciar sistemas nos quais raramente pensamos.
“Nossos achados sugerem que o café, com ou sem cafeína, pode influenciar a saúde de maneiras distintas, porém complementares”, observou o professor Cryan.






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