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Pegada de carbono do leite pode ser 41% maior ao incluir o solo

Homem ajoelhado segura garrafa de leite no campo com vacas ao fundo e tablet com dados na grama.
Neste artigo
  1. O que falta na conta do impacto climático do leite
  2. A forma de medir faz diferença
  3. O que acontece nos campos do norte
  4. As mudanças climáticas aumentam o estresse
  5. O papel do solo na pegada de carbono
  6. Repensar as emissões das propriedades rurais

Quando se fala sobre o impacto climático do leite, a atenção costuma se voltar para as vacas e o metano. Um novo estudo, porém, indica que essa discussão deixa de fora algo importante que acontece debaixo dos nossos pés.

O solo onde se cultiva a alimentação do gado pode armazenar carbono ou liberá-lo. Ao incluir essa parte pouco visível na conta, a pegada de carbono do leite pode se mostrar muito maior do que apontam diversas estimativas.

A pesquisa foi conduzida pela Universidade de Helsinque e pelo Instituto Meteorológico Finlandês, com dados da fazenda experimental Viikki, da Universidade de Helsinque.

A equipe analisou áreas onde há rotação entre pastagens e cereais e examinou como as alterações no carbono orgânico do solo influenciam o impacto climático total da produção de leite.

Os resultados indicam que a entrada e a saída de carbono do solo podem fazer uma grande diferença nos números finais.

O que falta na conta do impacto climático do leite

A pegada climática do leite costuma ser debatida a partir das emissões diretas das vacas, sobretudo do metano.

Até certo ponto, esse foco faz sentido: o metano é um potente gás de efeito estufa, e a criação de animais responde por uma parcela expressiva das emissões agrícolas no mundo.

O novo estudo, no entanto, defende que o quadro fica incompleto quando o carbono do solo é ignorado. Essa ausência reflete a falta de um método único e universalmente aceito para calcular, em cada propriedade rural, as mudanças no carbono orgânico do solo.

Como as metodologias ainda são debatidas, essas variações frequentemente ficam de fora das avaliações rotineiras de pegada de carbono.

Isso representa um problema porque o solo pode influenciar bastante o impacto climático da produção de alimentos. Em algumas propriedades, ele pode funcionar como sumidouro de carbono; em outras, pode se tornar uma fonte de emissões.

Uma mesma área pode apresentar resultados muito diferentes conforme a saúde do solo, o cultivo presente e a forma como a terra é manejada ao longo do tempo.

A forma de medir faz diferença

Para entender a importância desse fator, os pesquisadores recorreram à avaliação do ciclo de vida, método que acompanha os impactos ambientais em toda a cadeia produtiva.

Assim, observaram não apenas as vacas, mas tudo o que está ligado à produção de leite, do cultivo da alimentação animal ao manejo do esterco. Dentro dessa análise mais ampla, compararam três maneiras de calcular as mudanças no carbono do solo.

Cada método gerou estimativas bastante diferentes. A abordagem mais simples, o método padrão de Nível 1 do IPCC, apontou emissões muito menores do que as abordagens baseadas em medições de campo mais detalhadas e modelos de carbono.

Isso indica que alguns cálculos de uso comum podem apresentar um cenário mais brando do que a realidade. Se o método mais simples subestima de forma consistente o que ocorre no solo, a pegada final do leite também pode estar sendo subestimada.

Tratar a mudança no carbono do solo como uma estimativa aproximada pode fazer as emissões de uma propriedade parecerem muito diferentes das que seriam obtidas com uma medição mais cuidadosa.

O que acontece nos campos do norte

Na Finlândia, os ciclos repetidos de congelamento e descongelamento durante o inverno podem prejudicar as pastagens. Isso enfraquece as plantas, diminui seu crescimento e reduz a quantidade de carbono que chega ao solo por meio das raízes e de outras formas de biomassa.

Quando cresce bem, a pastagem pode ajudar a acumular carbono no solo. Sob condições de estresse, porém, as plantas ficam enfraquecidas, esse benefício diminui e o solo passa a liberar mais carbono.

À medida que o crescimento das pastagens diminuiu, o solo liberou uma quantidade considerável de carbono na atmosfera. Quando as áreas de pastagem foram convertidas em lavouras de cereais, as perdas de carbono cresceram drasticamente, chegando a quase cinco vezes o nível anterior.

Esse salto acentuado indica que mudanças no uso da terra em sistemas de criação de animais podem elevar significativamente as emissões, sobretudo quando os impactos sobre o solo são desconsiderados.

As mudanças climáticas aumentam o estresse

Os resultados também apontam para uma tendência preocupante no futuro. A expectativa é que as mudanças climáticas tragam formas mais imprevisíveis de estresse, incluindo episódios de congelamento e seca.

Se essas condições se tornarem mais frequentes, os campos poderão ser menos confiáveis como reservatórios de carbono.

A questão, portanto, não se limita ao que acontece hoje nas propriedades rurais. Envolve também a possibilidade de as mudanças climáticas enfraquecerem o papel natural de proteção que os solos às vezes desempenham.

O papel do solo na pegada de carbono

A inclusão das emissões do solo no cálculo completo da produção de leite fez uma diferença significativa.

A pegada de carbono ficou 41% maior do que nas avaliações que não consideravam as mudanças no carbono do solo. Esse aumento expressivo indica que deixar o solo de fora pode alterar substancialmente os resultados.

“Pastagens usadas para alimentar o gado podem tanto sequestrar carbono no solo quanto liberá-lo na atmosfera”, afirmou Yajie Gao, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Helsinque. “A biomassa subterrânea das gramíneas é uma fonte importante de carbono, que favorece seu sequestro no solo.”

“Por isso, o balanço de carbono de uma área faz parte da pegada de carbono do leite, embora normalmente seja deixado de fora dos cálculos. O solo é um banco vivo de carbono e, sem levá-lo em conta, não podemos fazer uma avaliação honesta do impacto climático da produção de alimentos.”

Repensar as emissões das propriedades rurais

Os pesquisadores defendem que uma contabilidade mais precisa exigirá a colaboração de profissionais de diferentes áreas.

Uma abordagem multidisciplinar que reúna ciência do solo, medições atmosféricas e avaliações ambientais é essencial para compreender com precisão o verdadeiro impacto do sistema alimentar.

O estudo ajuda produtores rurais a ir além de alegações genéricas de sustentabilidade e a adotar um manejo orientado por dados. Ao compreender o verdadeiro custo em carbono do solo, eles podem desenvolver soluções específicas para cada local que reduzam as emissões.

O impacto do leite em termos de carbono não começa nem termina na vaca. Ele depende também do que acontece no campo, nas raízes e no próprio solo.

Quando essa parte pouco visível entra no cálculo, o quadro se torna mais complexo, mas também mais honesto.

Para que a agricultura reduza suas emissões de maneira séria, é importante considerar esse quadro mais completo. Sem ele, algumas das perdas mais relevantes podem continuar enterradas no solo.

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Mariana Ferreira Alves

Nutricionista e consultora gastronômica especializada em alimentação prática, lanches equilibrados e empreendedorismo no setor de food service. No lilianlanches.com, compartilha conteúdos sobre receitas, tendências de lanches, qualidade dos ingredientes e estratégias para tornar cada refeição mais saborosa e acessível.

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