Os portugueses podem pagar menos pela mesma lista de compras do que outros europeus, mas comprometem uma parte maior da renda para isso. Uma cesta mais barata não significa, necessariamente, alimentos mais acessíveis: a comparação feita pelo JN conclui que os baixos salários colocam Portugal no fim da fila em poder de compra. Com a alta do custo de vida, crescem os pedidos de ajuda e “há cada vez mais pessoas financeiramente sufocadas recorrendo a crédito”, alerta a Deco.
A questão envolve o esforço financeiro e a parcela do salário gasta no supermercado. Na comparação entre redes de quatro países, Portugal tende a apresentar produtos mais baratos. Um exemplo é a análise dos hipermercados Auchan em três países: em Portugal, a cesta custa 12,37 euros a menos do que na França e 4,32 euros a menos do que na Espanha.
Entre redes diferentes, o Continente também tem a cesta mais barata, a 31,06 euros, valor 13% inferior ao do Mercadona, na Espanha, onde a mesma lista de 15 produtos sai por 35,10 euros. A diferença em relação à cesta da rede alemã Edeka, de 59,02 euros, chega a quase 30 euros.
Quando se considera a renda em cada país, porém, a carteira dos portugueses fica mais vazia. A cesta de 15 produtos representa 3,38% do salário mínimo português, de 920 euros, e 2,45% do salário-base alemão, de 2.343 euros.
Pedidos de ajuda
O escritório de proteção financeira da Deco recebe “cada vez mais pedidos de ajuda, principalmente neste último ano”. A coordenadora do escritório, Natália Nunes, destaca que a alta do custo de vida está levando um número crescente de famílias a situações-limite e à busca por apoio: “Todos os dias recebemos novos pedidos, tanto por telefone quanto presencialmente. Agora percebemos que chegam até nós casos mais graves, já com situações de crédito, com dívidas que tentaram pagar em parcelas”.
Segundo a responsável, o problema “é generalizado e afeta todos”, de trabalhadores a aposentados, “com os orçamentos apertados, que não são suficientes para as despesas”. Natália Nunes exemplifica: “Tentamos ajudar de várias formas, tanto com orientação para que as famílias se reorganizem financeiramente quanto intervindo em pedidos de apoio”.
Mercado em crise
Para o diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas e Distribuição, os números “evidenciam, sobretudo, um problema de poder de compra”. Gonçalo Lobo Xavier ressalta que os preços são resultado de “um esforço permanente de toda a cadeia de valor, desde a produção e a transformação até a energia, os transportes, a tributação e a distribuição”.
Rafael Alves Rocha, diretor-geral da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), vai além e defende, sob a perspectiva empresarial, que a aproximação do salário mínimo português ao de outros países só será sustentável se as empresas também conseguirem produzir mais e melhor. “Sem esses aumentos de produtividade, a viabilidade de muitas empresas estará em risco”, alerta.
“É evidente que o mercado de alimentos está em crise”, enfatiza o diretor-geral da CIP. Ele acrescenta que “os custos de energia estão esmagando as margens das empresas ao longo de toda a cadeia alimentar”, prejudicando “cada vez mais o consumidor”.
Nuno Serra, da Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola, alerta que a “cesta de alimentos vai pesar cada vez mais” diante dos cortes nos apoios previstos para o setor agroalimentar no próximo ano, que afetarão ainda mais os custos de produção.
Promoções falham e clientes perdem a paciência
As reclamações contra supermercados dispararam 19,8% neste ano, lideradas por queixas sobre promoções e atendimento. De acordo com o Portal da Queixa, já foram registradas 626 reclamações relacionadas a descontos, cupons e ofertas, acima das 583 registradas durante todo o ano anterior.
Em dois anos, as queixas sobre automação e falta de atendimento humano mais que dobraram, passando de 44 para 89: “Entre as situações relatadas estão a substituição de caixas com atendimento por caixas automáticos e a percepção de que os consumidores passaram a assumir tarefas antes realizadas por funcionários”.
“O varejo não pode resolver sozinho”
Por que a cesta de compras pesa mais no salário português?
O ponto central é diferenciar preços de poder de compra. Nessa comparação, a cesta portuguesa custa menos que a espanhola. A diferença está no peso sobre o salário mínimo, que reflete as diferenças de renda entre os dois países. Compartilhar fornecedores não significa ter estruturas de custos iguais: há diferenças de escala, tributação, logística e condições de operação.
O varejo pode reduzir ainda mais os preços?
O varejo tem um papel importante na proteção do poder de compra, mas não consegue resolver sozinho um problema estrutural de renda da economia portuguesa. A concorrência intensa contribui para manter preços competitivos e exerce pressão para reduzi-los.
Mas aumentar os salários não ajuda por si só?
Toda medida tributária voltada a aliviar os gastos das famílias, incluindo possíveis ajustes no IVA, deve ser avaliada quanto à eficácia, à sustentabilidade e ao impacto real sobre o consumidor. A APED defende a importância da estabilidade tributária, da previsibilidade e da redução dos custos do ambiente econômico que afetam toda a cadeia de valor.






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