Crianças de todo o mundo não consomem quantidades suficientes de frutas, verduras, legumes, feijões, oleaginosas e outros alimentos vegetais saudáveis, segundo o maior estudo já realizado sobre a alimentação desde os primeiros anos de vida até a adolescência.
Ao analisar dados alimentares de 185 países, a pesquisa constatou que a ingestão desses alimentos é baixa em quase todas as regiões.
O trabalho também identificou uma tendência inesperada: em países mais ricos, as crianças costumam comer menos alimentos vegetais à medida que crescem, embora suas necessidades nutricionais aumentem.
Ao acompanhar todas as etapas do desenvolvimento infantil, o estudo mostra não apenas onde a alimentação é insuficiente, mas também quando começa a piorar. Esse retrato mais claro pode ajudar governos e autoridades de saúde a direcionar melhor os programas de nutrição nos anos em que eles são mais importantes.
Consumo insuficiente de alimentos vegetais entre crianças
Em 2018, ano mais recente abrangido pela pesquisa, a ingestão entre crianças e adolescentes ficou aquém do necessário em todas as regiões.
Na média da infância e da adolescência, eles consumiam cerca de 2,8 porções diárias de alimentos vegetais saudáveis, e nenhum grupo etário, em qualquer região, ultrapassou aproximadamente 3,5 porções. Bebês com menos de um ano chegavam a pouco mais de uma porção.
A análise foi liderada por Sydney Yearley, pesquisadora de doutorado da Escola Friedman de Ciência e Política da Nutrição, da Universidade Tufts.
Sua equipe utilizou um banco de dados com 1.248 pesquisas alimentares realizadas em 185 países, abrangendo quase toda a população mundial.
Os primeiros anos de vida têm importância desproporcional para a saúde futura. “Nosso estudo mostra que crianças em todo o mundo não estão comendo alimentos vegetais saudáveis em quantidade suficiente, e isso representa uma oportunidade perdida”, disse Yearley ao Earth.com.
Como a alimentação muda com a idade
Em todas as idades, verduras e legumes sem amido representaram a maior parcela dos alimentos vegetais consumidos pelas crianças, à frente de frutas, feijões, oleaginosas e sementes.
Os pesquisadores ajustaram os totais para considerar as diferentes necessidades energéticas de cada faixa etária. Assim, um número maior entre adolescentes indica uma alimentação realmente mais rica nesses produtos, e não apenas um apetite maior.
Na maior parte do mundo, o consumo aumentou de forma constante dos primeiros anos de vida até o fim da adolescência, chegando a quase triplicar.
Nenhum estudo global anterior havia acompanhado vários alimentos vegetais ao longo de toda a infância, desde as primeiras refeições sólidas até a adolescência. Por isso, esse retrato por idade é inédito.
A inversão nos países ricos
Um grupo fugiu dessa tendência: nos países de alta renda, as crianças mais novas consumiam mais alimentos vegetais, e a ingestão caía conforme cresciam.
Bebês com menos de um ano consumiam, em média, cerca de 3,8 porções por dia. Entre crianças de cinco a nove anos, o número caía para aproximadamente 1,7 porção e, até o fim da adolescência, recuperava-se apenas para cerca de 2,1 porções.
Dados de países analisados individualmente apontam na mesma direção. Nos Estados Unidos, uma análise de pesquisas nacionais mostrou que a proporção de crianças que comiam alguma fruta em determinado dia diminuía continuamente dos primeiros anos de vida até o fim da adolescência.
Ainda não está claro por que, nos países ricos, as crianças mais novas comem mais alimentos vegetais.
“À medida que crescem, as crianças ganham mais independência e ficam cada vez mais cercadas por restaurantes, alimentos de conveniência, publicidade e lanches ultraprocessados”, disse Yearley ao Earth.com.
Em contrapartida, pais e pediatras costumam acompanhar de maneira muito mais próxima a alimentação dos bebês.
Onde as crianças se alimentam melhor
O lugar onde a criança vivia era tão importante quanto sua idade. No Sul da Ásia, as crianças consumiam menos alimentos vegetais em quase todas as faixas etárias.
No Leste e no Sudeste da Ásia, o consumo era o mais alto, favorecido pela oferta constante de verduras e legumes desde a primeira infância.
As diferenças entre países também eram grandes. Entre as 25 nações mais populosas do mundo, crianças e adolescentes consumiam menos alimentos vegetais na Espanha, no Paquistão e no Reino Unido.
Vietnã, República Democrática do Congo e México apresentaram o maior consumo de alimentos vegetais saudáveis entre crianças, com média superior a cinco porções diárias.
Entre as crianças mais novas, o consumo era menor no Paquistão, na Índia e na Etiópia, onde havia escassez de frutas, verduras e legumes, e maior na França, na Alemanha e na Itália. Em todos os lugares onde os totais eram altos, frutas, verduras e legumes respondiam pela maior parte das porções.
Quem consome mais alimentos vegetais
Por trás dos números nacionais, os mesmos padrões sociais apareciam repetidamente. Na maioria das regiões, meninas comiam um pouco mais de frutas, verduras e legumes do que meninos.
As crianças que viviam em cidades consumiam mais frutas, oleaginosas e sementes do que as da zona rural. Já aquelas de famílias com maior escolaridade ingeriam mais de quase todos os alimentos vegetais, com exceção de feijões e outras leguminosas.
A comparação ao longo do tempo trouxe algum alento. Em relação a 1990, os jovens consumiam, em 2018, mais verduras e legumes, além de mais oleaginosas e sementes, e a ingestão total de alimentos vegetais subiu ligeiramente.
Os vegetais ricos em amido foram a exceção, com queda mundial, enquanto o consumo de feijões e frutas quase não mudou.
Um caminho para melhorar a nutrição
A pesquisa oferece o primeiro mapa global do consumo desses alimentos desde os primeiros anos de vida até a idade adulta, com dados detalhados por sexo, escolaridade e local de residência.
Esse panorama mundial confirma que a ingestão é baixa em quase toda parte e aponta com precisão onde e quando a alimentação é insuficiente. Esse grau de detalhamento pode mudar as ações dos governos.
Questionada pelo Earth.com sobre o que ajudaria as famílias a manter hábitos alimentares saudáveis, Yearley afirmou que o estudo não foi concebido para testar intervenções específicas.
Ainda assim, segundo ela, os resultados reforçam a necessidade de soluções que tornem os alimentos saudáveis mais baratos, acessíveis e práticos.
A medida adequada varia conforme o lugar. Os países ricos têm agora um motivo para estender até os anos escolares o apoio à alimentação nos primeiros anos de vida, que parece proteger bem as crianças mais novas, já que o consumo de frutas, verduras e legumes diminui nessa fase.
Para os países do Sul da Ásia, há uma justificativa mais clara para ampliar o acesso a verduras e legumes a preços acessíveis.
Hábitos saudáveis duram a vida toda
O problema vai além do baixo consumo de alimentos vegetais. Um estudo relacionado, realizado nos mesmos 185 países, constatou que a ingestão de bebidas açucaradas entre crianças e adolescentes aumentou nas mesmas décadas em que o consumo de alimentos vegetais ficou estagnado.
Isso significa que a alimentação infantil está se deslocando para justamente os produtos que esses alimentos deveriam substituir.
Muitas vezes, as crianças levam para a vida adulta os hábitos alimentares adquiridos cedo. Consumir poucos alimentos vegetais na infância pode retardar o crescimento, enfraquecer a imunidade e elevar o risco de obesidade e diabetes mais tarde.
O mapa traçado pela pesquisa destaca as crianças e as idades em que uma pequena mudança no prato diário poderia trazer os maiores benefícios.






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