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Café e chá: consumo e risco de câncer de cabeça e pescoço

Homem sentado à mesa com xícaras de café e chá com limão e ampulheta ao lado.
Neste artigo
  1. O que os pesquisadores encontraram sobre café e risco de câncer
  2. Café descafeinado e chá: benefícios e possíveis riscos
  3. O que pode explicar o possível fator de proteção?
  4. Limitações do estudo: por que ninguém deve recorrer cegamente à cafeteira
  5. Principais resultados em resumo
  6. O que isso significa no dia a dia?
  7. Por que quatro xícaras não têm o mesmo efeito para todos
  8. Mais do que uma bebida: rituais, saúde mental e risco de câncer

Uma ampla análise internacional indica que o consumo habitual de café - e, com moderação, de chá - está associado a menor risco de determinados tipos de câncer de cabeça e pescoço. Porém, a situação está longe de ser tão simples quanto “café é bom, câncer desaparece”: os dados mostram um cenário mais complexo, no qual a quantidade ingerida, o tipo de bebida e o estilo de vida têm peso decisivo.

O que os pesquisadores encontraram sobre café e risco de câncer

A nova análise reuniu 14 estudos observacionais realizados na Europa, na América do Norte e na América Latina. No total, foram avaliados dados de 9.548 pessoas com câncer de cabeça e pescoço e de 15.783 participantes sem esse diagnóstico. Todos relataram a quantidade de café e chá que costumavam consumir, incluindo, em parte dos casos, café descafeinado.

Os pesquisadores levaram em conta fatores relevantes, como idade, sexo, tabagismo, consumo de álcool e ingestão de frutas e verduras. Somente depois desse ajuste eles compararam os grupos e identificaram uma associação expressiva.

Quem bebia mais de quatro xícaras de café com cafeína por dia apresentava, em média, um risco 17 por cento menor de câncer de cabeça e pescoço.

O resultado foi particularmente evidente nos tumores da cavidade oral e da região da garganta localizada logo atrás da boca, chamada orofaringe. Nesses locais, o hábito de tomar café regularmente parece representar um fator de proteção mensurável.

Café descafeinado e chá: benefícios e possíveis riscos

Ao analisar separadamente o café descafeinado e o chá, o quadro se torna menos conclusivo, embora traga pontos importantes.

Café descafeinado: benefício principalmente na cavidade oral

O café descafeinado apresentou uma tendência semelhante, ainda que menos intensa: quem consumia essa bebida teve menor ocorrência de câncer da cavidade oral. No entanto, os dados disponíveis não demonstraram a mesma vantagem para outros tipos de câncer de cabeça e pescoço.

Isso sugere que a cafeína não é o único elemento envolvido. Outros compostos presentes no café também podem atuar como fatores de proteção.

Chá: pouca quantidade pode ajudar, excesso talvez aumente o risco

O cenário do chá é ainda mais complexo. Embora a análise não tenha separado chá-preto, chá-verde e chás de ervas, algumas tendências ficaram claras:

  • Até uma xícara de chá por dia: cerca de 9 por cento menos risco de câncer de cabeça e pescoço no conjunto.
  • A redução mais visível do risco ocorreu sobretudo em determinados carcinomas da parte inferior da faringe.
  • Mais de uma xícara por dia: cerca de 38 por cento mais risco de câncer de laringe.

Especialistas apontam a temperatura da bebida e seus efeitos sobre o esôfago e o trato gastrointestinal como possíveis explicações. Chá muito quente pode irritar as mucosas e favorecer azia ou refluxo. Esse retorno do ácido gástrico é reconhecido como fator de risco para o câncer de laringe.

A dose parece ser decisiva no caso do chá - pequenas quantidades tendem a ser favoráveis, enquanto muito chá pode prejudicar a região da garganta.

O que pode explicar o possível fator de proteção?

A pesquisadora responsável destaca que café e chá contêm diversos compostos bioativos que vão além da cafeína. Entre eles estão:

  • Polifenóis - compostos vegetais secundários com ação antioxidante.
  • Flavonoides - podem reduzir inflamações e contribuir para a estabilidade das células.
  • Antioxidantes - neutralizam os chamados radicais livres, capazes de danificar o material genético.

Essas substâncias atuam em diferentes etapas do metabolismo celular. Elas podem limitar danos oxidativos, atenuar processos inflamatórios e apoiar os mecanismos de reparo das células. O câncer frequentemente se desenvolve quando tais sistemas de defesa falham ou ficam sobrecarregados - nesse contexto, o efeito observado para café e chá é coerente.

Limitações do estudo: por que ninguém deve recorrer cegamente à cafeteira

Apesar dos números claros, especialistas alertam para que café e chá não sejam tratados como uma “vacina protetora em uma xícara”. Os estudos utilizaram dados observacionais, nos quais os próprios participantes informaram quanto bebiam. Esse tipo de relato pode ser impreciso e é difícil de verificar.

Além disso, pessoas que consomem muito café ou chá frequentemente diferem em outros aspectos, como tabagismo, alimentação, nível de estresse ou ingestão de álcool. Métodos estatísticos conseguem reduzir parcialmente a influência desses fatores, mas não podem eliminá-la por completo.

Café e chá podem ser uma peça do quebra-cabeça complexo do risco de câncer - não a única resposta.

Outra limitação é a ausência de informações detalhadas sobre os métodos de preparo. Café filtrado, espresso, instantâneo e prensa francesa, por exemplo, podem alterar a concentração de determinados compostos. No caso do chá, também não se sabe se os participantes tomavam principalmente chá-preto, chá-verde ou misturas de ervas, nem qual era a temperatura da bebida.

Principais resultados em resumo

Bebida Consumo Efeito observado
Café com cafeína >4 xícaras/dia Cerca de 17 % menos risco de câncer de cabeça e pescoço no total
Café descafeinado Qualquer quantidade Menor risco de câncer da cavidade oral
Chá ≤1 xícara/dia Cerca de 9 % menos risco de câncer de cabeça e pescoço
Chá >1 xícara/dia Aproximadamente 38 % mais risco de câncer de laringe

O que isso significa no dia a dia?

Na prática, quem já aprecia café pode encarar com cautela a possibilidade de um benefício adicional, desde que os demais fatores estejam em ordem. Quatro xícaras diárias estão dentro da faixa considerada segura por entidades médicas europeias, ao menos para adultos saudáveis sem arritmias, hipertensão ou gravidez.

No caso do chá, vale observar tanto a quantidade quanto a temperatura. Uma xícara por dia parece segura e, segundo o estudo, pode até oferecer proteção. Quem bebe muito chá deve evitar consumi-lo fervendo e ficar atento a sinais de alerta, como azia frequente.

Como reduzir ainda mais o risco individual

Café e chá podem integrar um estilo de vida voltado à prevenção do câncer. Ainda assim, os fatores mais importantes continuam sendo outros:

  • Parar de fumar: de longe, o principal fator de risco para câncer de cabeça e pescoço.
  • Limitar o álcool: o risco aumenta muito, especialmente quando há associação com tabaco.
  • Manter uma alimentação variada: frutas, verduras e produtos integrais fornecem outros compostos protetores.
  • Praticar atividade física regularmente: o exercício influencia positivamente os hormônios e o sistema imunológico.
  • Cuidar da saúde bucal e dentária: inflamações na boca podem se tornar problemáticas a longo prazo.

Por que quatro xícaras não têm o mesmo efeito para todos

Há uma questão que o estudo não responde: o tamanho da influência das diferenças individuais. Cada pessoa metaboliza a cafeína em uma velocidade distinta. Algumas sentem palpitações após duas xícaras, enquanto outras tomam cinco sem dificuldade e ainda dormem bem. Genética, função hepática e uso de medicamentos também interferem nesse processo.

Pessoas com doenças cardiovasculares, gestantes ou indivíduos com distúrbios do sono devem seguir limites mais rigorosos. Quem tiver dúvidas deve conversar com seu médico ou médica de família sobre a quantidade de cafeína antes de aumentar corajosamente o consumo para quatro xícaras.

Mais do que uma bebida: rituais, saúde mental e risco de câncer

Há ainda um aspecto frequentemente deixado de lado em análises desse tipo: o ritual. A pausa para o café no trabalho, o chá no sofá à noite e a conversa com colegas perto da máquina ajudam a reduzir o estresse e a organizar o dia. Por sua vez, o estresse crônico é considerado um fator que contribui para diversas doenças e também afeta o sistema imunológico.

É difícil separar estatisticamente se a possível proteção contra o câncer vem mais dos grãos ou de um conjunto mais saudável, formado por prazer, momentos sociais e pequenas pausas. No cotidiano, porém, o principal é aproveitar bebidas quentes com consciência, observando quantidade, temperatura e estilo de vida. Assim, pode haver um efeito duplo: um pouco mais de bem-estar mental e, talvez, menos risco na garganta.

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Mariana Ferreira Alves

Nutricionista e consultora gastronômica especializada em alimentação prática, lanches equilibrados e empreendedorismo no setor de food service. No lilianlanches.com, compartilha conteúdos sobre receitas, tendências de lanches, qualidade dos ingredientes e estratégias para tornar cada refeição mais saborosa e acessível.

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