Pular para o conteúdo
Notícias

Acordo UE–Mercosul: como o tratado pode mudar alimentos, comércio e supermercados

Mesa de madeira com vinho, queijo, uvas, pão, azeite, arroz, carne grelhada e mel.
Neste artigo
  1. O que está em jogo no acordo UE–Mercosul
  2. Por que agricultores protestam contra o tratado
  3. Quais alimentos europeus ganham espaço no Mercosul
  4. Carne, açúcar, arroz e mel: os produtos do Mercosul que ganham cota
  5. O impacto possível para o consumidor brasileiro
  6. Termos que ajudam a entender o debate
  7. Cenários possíveis para os próximos anos

Um tratado discutido há décadas pode transformar, de forma discreta, os alimentos que chegam à mesa dos europeus - e a procedência deles.

Após anos de bloqueio político e intensa pressão de diferentes setores, o acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul volta a avançar. Além da retórica diplomática, o entendimento afeta diretamente a circulação de carne, vinho, laticínios, açúcar e muitos outros itens presentes nos supermercados da Europa e da América do Sul.

O que está em jogo no acordo UE–Mercosul

Há aproximadamente 25 anos, a UE negocia com Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia. Os dois blocos reúnem cerca de 780 milhões de consumidores e têm peso relevante no PIB mundial. Não se trata de um pacto comercial comum: é um dos mais amplos já negociados por Bruxelas.

Em janeiro, a maior parte dos países europeus aprovou o tratado, apesar da resistência de França, Áustria, Irlanda, Polônia e Hungria. A formalização da assinatura deve ocorrer no Paraguai, com a presidência da Comissão Europeia e representantes do Mercosul.

Mais de 90% das tarifas de importação entre UE e Mercosul devem ser reduzidas ou eliminadas de forma gradual, abrindo espaço para um fluxo bem maior de alimentos.

Embora a redução tarifária alcance diversos ramos industriais, é na agricultura que seus efeitos podem ser percebidos mais diretamente pelas famílias, tanto nos preços quanto na origem dos produtos.

Por que agricultores protestam contra o tratado

Na França, entidades rurais têm promovido manifestações em estradas e feiras do setor para contestar o acordo. Levantamentos de opinião indicam que aproximadamente 70% dos franceses se dizem contrários ao pacote comercial. A principal preocupação é a concorrência considerada desigual com produtos agropecuários sul-americanos, entendidos como mais baratos devido aos menores custos trabalhistas e a regras ambientais distintas.

Para uma parcela do setor europeu, o tratado pode reduzir a renda no campo e ampliar a concentração nas mãos de grandes exportadores. Os apoiadores, porém, sustentam que a expansão do mercado pode fortalecer cadeias de valor integradas e criar oportunidades para produtores europeus de vinho, laticínios e alimentos processados.

Quais alimentos europeus ganham espaço no Mercosul

A queda das tarifas não se limita aos produtos tropicais exportados para a Europa. Alimentos europeus também devem ter entrada mais simples nos países sul-americanos, entre eles:

  • Vinhos e espumantes fabricados em França, Itália, Espanha e Portugal
  • Azeites de oliva, especialmente da Espanha e da Itália
  • Laticínios, incluindo queijos, manteiga e leite em pó
  • Chocolates e produtos europeus de confeitaria

Para esses segmentos, o acordo pode abrir novos mercados e elevar o volume exportado, à medida que as tarifas de entrada nos países do Mercosul sejam reduzidas progressivamente.

A proteção de produtos com selo de origem

A proteção de alimentos e bebidas com selos de qualidade também é um tema sensível. Entre eles estão a AOP (denominação de origem protegida, semelhante à Denominação de Origem Protegida) e a IGP (indicação geográfica protegida). O tratado determina que essas denominações recebam proteção no Mercosul.

Queijos, vinhos, carnes e outros produtos tradicionais europeus passam a ter seus nomes oficialmente protegidos em parte da América do Sul, evitando imitações com a mesma denominação.

A relação inclui, entre outros exemplos:

Categoria Exemplos protegidos
Queijos Comté, Gruyère, Roquefort
Vinhos e bebidas Champagne, Chablis, rum da Guadelupa
Produtos do mar Ostras de Marennes-Oléron
Frutas e grãos Pruneaux d’Agen (ameixas secas), arroz da Camarga
Carnes e embutidos Boeuf de Charolles, presunto de Bayonne

Na prática, o mecanismo impede que produtores fora da Europa comercializem, por exemplo, um espumante chamado “Champagne” ou um queijo “Roquefort” sem respeitar as regras de origem aplicáveis a essas regiões.

Carne, açúcar, arroz e mel: os produtos do Mercosul que ganham cota

Para os países sul-americanos, a parte mais controversa do acordo envolve novos volumes permitidos de exportações agrícolas ao mercado europeu. O texto estabelece cotas anuais para determinados itens, normalmente com tarifa reduzida ou isenta até um limite definido.

Os dados mais mencionados são:

  • 99 mil toneladas de carne bovina por ano
  • 180 mil toneladas de carne de aves
  • 180 mil toneladas de açúcar
  • 60 mil toneladas de arroz
  • 45 mil toneladas de mel

Essas cotas funcionam como um “corredor preferencial” para parte da produção de países do Mercosul, que entra na UE com custos menores em relação a outros competidores externos.

No caso de bovinos e aves, a concorrência atinge diretamente produtores europeus, sobretudo em França, Irlanda e países do Leste Europeu. Já para açúcar, arroz e mel, a consequência tende a se concentrar em segmentos específicos e em indústrias que utilizam essas matérias-primas, como as de bebidas, confeitaria e alimentos prontos.

Viticultura, azeite e leite: ganhos e incertezas

Entre os setores europeus, vinho, azeite de oliva e derivados de leite aparecem como possíveis beneficiários do acordo. Com tarifas menores, produtores espanhóis, italianos, portugueses e franceses podem se tornar mais competitivos nos centros urbanos do Mercosul, onde a classe média amplia o consumo de produtos de “estilo europeu”.

Em contrapartida, sindicatos rurais afirmam que os benefícios podem se concentrar em grandes companhias exportadoras, enquanto pequenas propriedades continuam sob pressão por custos ambientais e trabalhistas superiores aos enfrentados por concorrentes externos à UE.

O impacto possível para o consumidor brasileiro

Apesar de a discussão se concentrar na Europa, os efeitos também podem chegar à rotina brasileira. Dependendo da maneira como o acordo for executado, os supermercados do país poderão oferecer mais rótulos europeus nas seções de vinhos, queijos e chocolates.

Entre os possíveis resultados estão:

  • Maior diversidade de produtos importados, sobretudo de marcas médias ainda pouco disponíveis
  • Aumento da pressão competitiva sobre vinhos, queijos finos e azeites produzidos na América do Sul
  • Eventual queda de preços em algumas categorias, se a redução tarifária for transferida ao consumidor

Ao mesmo tempo, a indústria brasileira de carne, açúcar e grãos aparece como uma forte candidata a utilizar as cotas de exportação para a UE, reforçando o papel do país como fornecedor de commodities agrícolas.

Termos que ajudam a entender o debate

Determinados conceitos são recorrentes nas discussões sobre o acordo e influenciam diretamente a extensão dessas mudanças.

O que é exatamente uma cota de importação

Uma cota corresponde a um volume máximo que pode entrar em um mercado sob condições especiais, como tarifa reduzida ou zero. No exemplo da carne bovina, até 99 mil toneladas por ano teriam acesso favorecido. Acima desse patamar, a exportação ainda é possível, mas passa a estar sujeita a tarifas mais elevadas.

Na prática, os exportadores que ocuparem essas cotas antes dos demais obtêm uma vantagem competitiva importante.

Como funciona a proteção de indicação geográfica

Indicações geográficas são certificações atribuídas a itens cujas características dependem fortemente de seu território, incluindo clima, solo e técnicas tradicionais. Quando um acordo comercial reconhece essas certificações, os parceiros assumem o compromisso de respeitar a denominação e limitar seu uso.

O instrumento interessa aos produtores europeus, mas também pode servir de modelo para regiões brasileiras que desejam valorizar cafés especiais, cachaças, queijos artesanais e frutas de origem determinada, com possibilidade de buscar entendimentos semelhantes em futuras negociações.

Cenários possíveis para os próximos anos

Caso o acordo seja aplicado integralmente, uma tendência provável é a especialização maior entre as regiões: áreas do Mercosul concentradas em carne, grãos, açúcar e alguns produtos processados; e áreas da UE fortalecendo sua posição em itens de alto valor agregado, como vinhos, queijos com denominação de origem e alimentos gourmet.

Também pode haver maior exigência ambiental vinculada ao cumprimento do tratado. Grupos europeus já defendem que parte dos benefícios tarifários dependa do combate ao desmatamento e da observância de normas trabalhistas. Isso pode levar governos sul-americanos a adotar sistemas de rastreabilidade mais rigorosos para carne e soja, por exemplo.

Para o consumidor brasileiro, a questão pode parecer distante, mas envolve aspectos concretos: quais produtos serão fabricados para o mercado interno, o que será destinado à exportação e quais artigos estrangeiros passarão a concorrer nas gôndolas com os nacionais.

Em alta agora

Mariana Ferreira Alves

Nutricionista e consultora gastronômica especializada em alimentação prática, lanches equilibrados e empreendedorismo no setor de food service. No lilianlanches.com, compartilha conteúdos sobre receitas, tendências de lanches, qualidade dos ingredientes e estratégias para tornar cada refeição mais saborosa e acessível.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário