Pular para o conteúdo
Notícias

Alimentos ultraprocessados podem reduzir as chances de engravidar

Casal debatendo escolhas alimentares entre fast food e alimentos saudáveis na cozinha de casa.
Neste artigo
  1. O que são, de fato, os alimentos ultraprocessados
  2. O estudo: quando alimentação e desejo de ter filhos se encontram
  3. O que os embriões revelam no laboratório
  4. Possíveis causas: da falta de nutrientes à inflamação
  5. Por que os alimentos ultraprocessados se tornam uma questão de saúde pública
  6. O que casais que desejam ter filhos podem fazer na prática
  7. Termos importantes em poucas palavras
  8. Alimentação é mais do que uma tendência

Pizza congelada, salgadinhos de pacote, cereais matinais açucarados e refrigerantes fazem parte da rotina de muitas pessoas. Uma ampla pesquisa agora indica que uma alimentação rica nesses alimentos ultraprocessados pode reduzir, sem que se perceba, as chances de engravidar - e até afetar o desenvolvimento inicial dos embriões.

O que são, de fato, os alimentos ultraprocessados

Embora o termo pareça técnico, ele se refere basicamente a produtos industrializados que quase não lembram seus ingredientes originais. Para classificá-los, pesquisadores costumam usar o sistema NOVA, que organiza os alimentos de acordo com o grau de processamento.

  • Pouco processados: frutas, verduras e legumes, castanhas, carne fresca, ovos
  • Processados: queijos, pão de padaria, iogurte natural, alimentos em conserva
  • Ultraprocessados: pizza congelada, macarrão instantâneo, salgadinhos, doces industrializados, refrigerantes e muitos produtos infantis prontos

Em geral, os ultraprocessados reúnem farinhas refinadas, açúcar, sal, gorduras de baixo custo, aromatizantes, corantes, emulsificantes e outros aditivos. São práticos, baratos e duram mais tempo, mas é justamente essa combinação que vem preocupando cada vez mais especialistas.

“O estudo atual mostra: quanto maior a participação de alimentos ultraprocessados na dieta, menor a chance de engravidar.”

O estudo: quando alimentação e desejo de ter filhos se encontram

Os dados analisados vieram de milhares de mulheres em idade reprodutiva acompanhadas durante anos. Seus padrões alimentares foram registrados detalhadamente e avaliados pela classificação NOVA. Ao mesmo tempo, os pesquisadores verificaram quanto tempo elas levaram para engravidar e como evoluíram os tratamentos de fertilização in vitro.

Os resultados apontaram uma tendência clara: em média, mulheres que consumiam mais alimentos ultraprocessados tinham menos probabilidade de engravidar. A equipe considerou fatores importantes, como idade, índice de massa corporal, escolaridade e estilo de vida. Mesmo após esses ajustes, a associação permaneceu.

É importante destacar: o trabalho não demonstra que produtos prontos causem infertilidade diretamente. Mas revela uma relação estatística consistente que merece atenção.

Mais alimentos prontos, menos chances mensuráveis

Em vez de tratar a questão como algo de tudo ou nada, os pesquisadores avaliaram o efeito gradualmente. A cada aumento percentual da participação de alimentos ultraprocessados no cardápio, a chance de gravidez diminuía de forma mensurável. Portanto, trata-se de um efeito progressivo, não de uma regra absoluta.

Uma segunda constatação importante veio dos ciclos de fertilização in vitro (FIV). Neles, foi possível analisar diretamente a qualidade dos embriões - uma visão rara e precisa dos primeiros dias da vida humana.

O que os embriões revelam no laboratório

Nos tratamentos de FIV, os embriões se desenvolvem em laboratório e podem ser acompanhados minuciosamente ao microscópio. Os pesquisadores compararam os embriões de mulheres com uma alimentação mais natural e pouco processada aos de mulheres que comiam consideravelmente mais produtos prontos e salgadinhos.

O padrão foi evidente: no grupo com maior consumo de alimentos ultraprocessados, havia mais embriões com qualidade inferior. Foram avaliados critérios como:

  • Regularidade e velocidade da divisão celular
  • Estrutura da massa celular
  • Estabilidade geral e capacidade de sobrevivência

“O desenvolvimento embrionário inicial reage de forma sensível às condições do corpo materno - e isso inclui diretamente o que se come e bebe todos os dias.”

A suspeita é que a alimentação possa afetar os óvulos antes mesmo da fecundação: sua qualidade, maturação, disponibilidade de energia e, mais tarde, as primeiras divisões celulares após o encontro com o espermatozoide.

Possíveis causas: da falta de nutrientes à inflamação

Por que uma pizza congelada poderia interferir na fertilidade? O estudo ainda não oferece uma resposta definitiva, mas aponta diversos mecanismos plausíveis que podem atuar em conjunto.

Excesso de calorias, escassez de nutrientes

Produtos ultraprocessados frequentemente fornecem muitas calorias, mas quantidades relativamente baixas de vitaminas, minerais, fibras e gorduras de boa qualidade. Assim, mesmo com o prato cheio, podem faltar componentes importantes para a produção hormonal, a proteção celular e o reparo do DNA.

Para os óvulos, que se desenvolvem durante meses nos ovários, condições estáveis e boa nutrição são fundamentais. A carência de ácido fólico, ácidos graxos ômega-3, vitamina D ou antioxidantes, por exemplo, pode comprometer a qualidade dos óvulos.

Inflamação crônica e estresse oxidativo

Muitos alimentos processados concentram grandes quantidades de açúcar e gorduras saturadas. A longo prazo, isso pode favorecer um estado inflamatório leve e persistente no organismo. Ao mesmo tempo, aumenta o chamado estresse oxidativo: o corpo passa a produzir mais moléculas agressivas de oxigênio do que consegue neutralizar com seus mecanismos de defesa.

Células sensíveis, como óvulos e espermatozoides, são particularmente vulneráveis a esse processo. Entre as possíveis consequências estão danos ao DNA, alterações nas mitocôndrias - as “usinas de energia” das células - e divisões celulares defeituosas.

Substâncias que desregulam o sistema hormonal

Outro ponto de atenção são as substâncias com ação hormonal. Elas podem vir de embalagens, revestimentos ou determinados aditivos e interferir no sistema endócrino do organismo. Como o ciclo menstrual e a ovulação dependem de um equilíbrio hormonal muito preciso, até pequenas alterações podem reduzir a fertilidade.

“Pesquisadores falam de uma ‘longa preparação’ da fertilidade: o que se come anos antes pode influenciar o desejo de ter filhos mais tarde.”

Por que os alimentos ultraprocessados se tornam uma questão de saúde pública

Em muitos países ocidentais, os alimentos ultraprocessados já fornecem mais da metade das calorias consumidas diariamente. Em paralelo, cresce a proporção de casais que enfrentam dificuldades de fertilidade. Estimativas indicam que cerca de uma em cada seis mulheres tem problemas para engravidar em algum momento da vida.

O novo estudo sugere que os hábitos alimentares podem intensificar essa tendência. Somam-se a isso efeitos já conhecidos dos produtos prontos sobre ganho de peso, glicemia, pressão arterial e doenças cardiovasculares. A sobrecarga, portanto, é dupla: afeta a saúde geral e a capacidade reprodutiva.

Como a alimentação pode ser modificada, especialistas veem nela uma oportunidade de prevenção. Informação, rotulagem clara e alternativas práticas no dia a dia podem ser especialmente úteis para mulheres e homens que pretendem ter filhos nos próximos anos.

O que casais que desejam ter filhos podem fazer na prática

Ninguém precisa adotar uma alimentação perfeitamente “limpa” de um dia para o outro. Pequenas mudanças mantidas com regularidade já podem reduzir de modo significativo a participação de ultraprocessados na dieta. Alguns exemplos práticos são:

  • Trocar refrigerantes por água, água com suco ou chá sem açúcar
  • Substituir a pizza congelada por pão integral com queijo, verduras e legumes e azeite de oliva
  • Limitar salgadinhos e biscoitos, escolhendo castanhas, frutas ou iogurte como alternativa
  • Cozinhar mais em casa - até refeições simples, com poucos ingredientes frescos, são suficientes
  • Preferir produtos com listas de ingredientes mais curtas: quanto menos números E, melhor

Quem está planejando uma gravidez pode rever os próprios hábitos entre seis e doze meses antes da gestação planejada. Isso dá ao corpo tempo para formar reservas e substituir gradualmente óvulos possivelmente danificados por meio de novos ciclos de maturação.

Termos importantes em poucas palavras

Classificação NOVA: sistema que classifica os alimentos não pelos nutrientes - gordura, proteína ou açúcar -, mas pelo seu grau de processamento. Os produtos ultraprocessados ocupam o nível mais alto.

Período periconcepcional: fase ao redor da concepção, ou seja, as semanas anteriores e posteriores à fecundação do óvulo. Nessa etapa, o embrião é especialmente sensível a alterações.

Estresse oxidativo: desequilíbrio entre moléculas agressivas de oxigênio e os sistemas de proteção do organismo. Ele pode danificar componentes celulares, como DNA, proteínas e gorduras.

Alimentação é mais do que uma tendência

Os novos dados chamam atenção para um aspecto que durante muito tempo foi subestimado: a fertilidade não é um acontecimento isolado no mês da ovulação. Ela se constrói ao longo dos anos pela interação entre alimentação, peso, atividade física, nível de estresse, influências ambientais e predisposição genética.

Quem mantém uma dieta baseada em produtos altamente processados economiza tempo, mas talvez pague um preço biológico que só se torna visível muito depois. Para casais que desejam ter filhos, pode valer a pena olhar para a alimentação não apenas pela perspectiva de emagrecer ou não, mas como um investimento na própria possibilidade de se tornar pai ou mãe.

Em alta agora

Mariana Ferreira Alves

Nutricionista e consultora gastronômica especializada em alimentação prática, lanches equilibrados e empreendedorismo no setor de food service. No lilianlanches.com, compartilha conteúdos sobre receitas, tendências de lanches, qualidade dos ingredientes e estratégias para tornar cada refeição mais saborosa e acessível.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário