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Aquicultura: estudo revela riscos para clima, biodiversidade e segurança alimentar

Jovem seleciona frutos do mar frescos em balcão refrigerado com gelo em peixaria próxima ao mar.
Neste artigo
  1. Aquicultura avança para espécies de maior risco
  2. A escolha das espécies importa mais que o volume
  3. Indicadores apontam tendência de queda
  4. O salmão ilustra o problema
  5. A importância das espécies de baixo impacto
  6. Segurança alimentar vai além das calorias
  7. Consumidores influenciam a mudança

A aquicultura costuma ser apontada como uma das principais soluções para o problema mundial da oferta de pescado. Enquanto a pesca de espécies selvagens sofre pressão e a demanda continua crescendo, a criação de organismos aquáticos pode, em teoria, fornecer proteína com uma pegada menor que a de muitos animais terrestres.

Um novo estudo da Universidade da Colúmbia Britânica, porém, indica que a expansão atual da aquicultura está se afastando de seus maiores pontos fortes.

A produção aquícola aumenta, mas depende cada vez mais de espécies menos favoráveis à segurança alimentar, às metas climáticas e à biodiversidade do que as espécies de baixo impacto cuja produção poderia ser ampliada.

Aquicultura avança para espécies de maior risco

O estudo examinou a produção aquícola mundial de 1950 a 2023 e constatou que, desde os anos 1980, o setor passou a se concentrar em um conjunto menor de espécies criadas de forma mais intensiva, sobretudo peixes alimentados com ração.

Em geral, essas espécies apresentam maiores contrapartidas ambientais do que o cultivo de algas e moluscos.

“Os resultados mostram que as tendências atuais de produção estão nos levando na direção errada”, disse o autor sênior William Cheung, diretor do Instituto para os Oceanos e a Pesca (IOF).

“Estamos vendo aumentar o descompasso entre o que produzimos e o que melhor favoreceria os resultados para o clima, a biodiversidade e a segurança alimentar.”

A escolha das espécies importa mais que o volume

A ideia central é simples: a aquicultura não é uma atividade única e uniforme. Cultivar algas não é o mesmo que criar salmão, assim como criar mexilhões é diferente de criar camarão.

A escolha das espécies influencia desde o impacto climático e o valor nutricional até os riscos de doenças, a poluição, a demanda por ração e a interação dos criadouros com os ecossistemas.

Por isso, os pesquisadores foram além da contagem da produção total. Eles adotaram uma abordagem “baseada em características”, avaliando essencialmente o que as diferentes espécies fazem e do que precisam, e investigaram como a aquicultura contribui para três objetivos amplos: oferta de alimentos, impacto climático e biodiversidade.

A conclusão foi clara: a aquicultura de períodos anteriores, mais apoiada em algas e moluscos, tinha maior potencial de sustentabilidade que os sistemas atuais, cada vez mais dominados por espécies alimentadas com ração, como salmão e camarão.

Indicadores apontam tendência de queda

Para quantificar essa mudança, a equipe criou índices que acompanham o alinhamento da produção aquícola com objetivos de alimentação, clima e biodiversidade.

A China é um dos exemplos destacados por sua grande participação no setor. Em 2022, o país respondeu por 56% da produção aquícola mundial.

Na composição de sua produção, houve queda nos três índices entre o período de referência de 1976 a 1980 e o intervalo de 2019 a 2023: alimentação: −14,1%; clima: −21,6%; e biodiversidade: −12,9%.

Nas Américas, o índice de alimentação teve apenas uma pequena alta (+0,8%), enquanto os de clima e biodiversidade recuaram (−11,4% e −9,1%).

Assim, mesmo onde a produção cresce rapidamente, os pesquisadores sustentam que o conjunto de espécies está cada vez menos alinhado à sustentabilidade de longo prazo.

O salmão ilustra o problema

A criação de salmão é uma atividade de grande escala, lucrativa e em rápida expansão. O artigo a usa para mostrar por que o “crescimento”, por si só, não conta toda a história.

“A aquicultura de salmão é atualmente o setor de alimentos que mais cresce no mundo; no entanto, ela é fortemente afetada pelo aquecimento das águas e pela perda de oxigênio e tem menor potencial para alimentação, clima e biodiversidade”, afirmou a autora principal Aleah Wong, doutoranda no IOF.

“Nem todas as espécies da aquicultura são iguais. Algumas, como os bivalves e as algas, podem proporcionar benefícios ambientais significativos, enquanto outras trazem maiores contrapartidas.”

“Atualmente, muitas das espécies mais benéficas estão sub-representadas na produção mundial.”

A importância das espécies de baixo impacto

O cultivo de moluscos, como mexilhões e ostras, e de algas costuma ser classificado como aquicultura de “baixo uso de insumos”, pois esses organismos não precisam de ração da mesma maneira que os peixes.

Eles filtram ou absorvem nutrientes da coluna d’água e, em determinadas condições, podem até melhorar a qualidade da água local.

As algas também incorporam carbono à biomassa, embora o armazenamento desse carbono a longo prazo dependa do que acontecer depois.

Segundo os pesquisadores, ampliar a produção dessas espécies de baixo impacto é uma das maneiras mais evidentes de alinhar melhor a aquicultura às metas climáticas e de biodiversidade, sem abandonar a produção de pescado.

Segurança alimentar vai além das calorias

O estudo também ressalta que segurança alimentar não se resume a produzir a maior quantidade possível em toneladas.

Ela depende da qualidade nutricional, da eficiência, da acessibilidade e de os sistemas de criação realmente tornarem os alimentos mais disponíveis e acessíveis em termos de preço.

“A segurança alimentar é influenciada por fatores como a eficiência da produção e a densidade nutricional das espécies, mas também por dinâmicas complexas entre produtores, consumidores, mercados e órgãos reguladores, que a afetam indiretamente por meio de impactos na disponibilidade e no acesso aos alimentos, no comércio, na renda e na equidade”, disse Cheung.

“Muitas regiões já cultivam espécies com alto potencial de sustentabilidade. Ao ampliar a produção dessas espécies e diversificar a produção, a aquicultura pode contribuir melhor para as metas globais de sustentabilidade.”

Consumidores influenciam a mudança

O estudo não sugere que baste dizer aos produtores que criem mais mexilhões e cultivem mais algas. A aquicultura acompanha os mercados.

Se os consumidores continuarem demandando salmão e camarão, e se essas atividades oferecerem os sinais mais fortes de lucratividade, os dois setores continuarão se expandindo.

Por isso, os autores afirmam que a mudança exigirá ações coordenadas em políticas públicas, investimentos e comportamento dos consumidores.

“Uma transição para uma aquicultura mais sustentável exigiria ação internacional coordenada”, explicou Wong. “São necessárias políticas melhores, investimento em inovação e mudanças no que os consumidores estão dispostos a comer.”

A aquicultura não é a vilã dessa história. Ela continua sendo uma das melhores opções para produzir pescado sem esgotar os oceanos. O estudo, porém, argumenta que sua trajetória poderia ser orientada com mais cuidado.

O crescimento, sozinho, não determinará o futuro do setor. Também serão decisivas as escolhas entre intensificar a aposta em espécies que exigem mais insumos e trazem maiores contrapartidas ou ampliar a produção de organismos aquáticos adequados a um mundo que tenta conciliar segurança alimentar, pressão climática e perda de biodiversidade.

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Mariana Ferreira Alves

Nutricionista e consultora gastronômica especializada em alimentação prática, lanches equilibrados e empreendedorismo no setor de food service. No lilianlanches.com, compartilha conteúdos sobre receitas, tendências de lanches, qualidade dos ingredientes e estratégias para tornar cada refeição mais saborosa e acessível.

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