O leite para crianças pequenas é popular - e sua aceitação continua crescendo. Pouco mais de um terço das crianças australianas nessa faixa etária o consome. Em todo o mundo, os pais gastam centenas de milhões de dólares com esse produto. Globalmente, o leite para crianças pequenas representa quase metade das vendas totais de fórmulas lácteas e registrou crescimento de 200% desde 2005. A expectativa é que essa expansão continue.
Estamos preocupados com a popularidade cada vez maior do leite para crianças pequenas: por sua composição nutricional, seu preço, a forma como é promovido e seus efeitos sobre a saúde e a alimentação das crianças. Algumas de nós expressaram essas preocupações recentemente no programa 7.30, da ABC.
Mas o que há no leite para crianças pequenas? Como ele se compara ao leite de vaca? E por que se tornou tão popular?
O que é leite para crianças pequenas? Ele é saudável?
O leite para crianças pequenas é divulgado como adequado para crianças de um a três anos. Esse alimento ultraprocessado contém:
- leite em pó desnatado (de vaca, soja ou cabra);
- óleo vegetal;
- açúcares, inclusive açúcares adicionados;
- emulsificantes, que ajudam a unir os ingredientes e melhoram a textura;
- vitaminas e minerais adicionados.
Em geral, o leite para crianças pequenas tem menos cálcio e proteína, além de mais açúcar e calorias, do que o leite de vaca comum. Conforme a marca, uma porção pode conter tanto açúcar quanto um refrigerante.
Embora esses produtos recebam vitaminas e minerais adicionados, esses nutrientes estão presentes em alimentos comuns e no leite materno, dos quais também são melhor absorvidos. Crianças pequenas que têm uma alimentação variada não precisam do nível de nutrientes oferecido por esses produtos.
Autoridades globais de saúde, entre elas a Organização Mundial da Saúde (OMS), e o Conselho Nacional Australiano de Saúde e Pesquisa Médica não recomendam leite para crianças pequenas saudáveis.
Algumas crianças com problemas médicos metabólicos ou alimentares específicos podem necessitar de alternativas personalizadas ao leite de vaca. Contudo, esses produtos normalmente não são leites para crianças pequenas, mas sim itens específicos prescritos por um profissional de saúde.
O leite para crianças pequenas também pode custar de quatro a cinco vezes mais do que o leite de vaca comum. O leite para crianças pequenas “premium” - o mesmo produto, com níveis mais elevados de vitaminas e minerais - é ainda mais caro.
Em meio à crise do custo de vida, isso pode levar famílias a abrir mão de outras necessidades essenciais para conseguir comprar leite para crianças pequenas.
Como o leite para crianças pequenas foi criado
O leite para crianças pequenas surgiu para permitir que as empresas de fórmulas infantis contornassem regras que as impediam de anunciar suas fórmulas para bebês.
Quando os fabricantes alegam benefícios para o leite destinado a crianças pequenas, muitos pais presumem que tais benefícios também valem para as fórmulas infantis - uma prática conhecida como promoção cruzada. Em outras palavras, promover leites para crianças pequenas também aumenta o interesse pelas fórmulas infantis dessas empresas.
Os fabricantes ainda constroem fidelidade e reconhecimento de marca ao criar embalagens de leite para crianças pequenas semelhantes às de suas fórmulas infantis. Para pais que já utilizaram fórmula infantil, o produto é apresentado como a etapa seguinte da alimentação.
Como o leite para crianças pequenas se tornou tão popular
O leite para crianças pequenas recebe forte investimento em marketing. Os pais ouvem que ele é saudável e oferece nutrição extra. As campanhas afirmam que o produto favorece o crescimento e o desenvolvimento da criança, sua função cerebral e seu sistema imunológico.
Esse leite também é apresentado como uma resposta à seletividade alimentar, algo comum entre crianças pequenas.
No entanto, seu consumo regular pode elevar o risco de seletividade, pois diminui as oportunidades de a criança experimentar alimentos novos. Além disso, é doce, não exige mastigação e, na prática, substitui a energia e os nutrientes fornecidos por alimentos in natura ou minimamente processados.
Preocupação crescente
A OMS e pesquisadores da saúde pública vêm alertando há anos sobre a promoção do leite para crianças pequenas.
Na Austrália, as tentativas de limitar a forma como esse produto é divulgado não avançaram. O leite para crianças pequenas pertence a uma categoria de alimentos que pode ser fortificada - com adição de vitaminas e minerais - sem restrições de marketing. A Comissão Australiana de Concorrência e Consumidores também está preocupada com o crescimento da divulgação desses produtos. Apesar disso, não houve mudança em sua regulamentação.
Isso contrasta com as restrições voluntárias de marketing aplicadas na Austrália às fórmulas infantis.
O que precisa acontecer?
Há evidências suficientes de que o marketing de fórmulas lácteas comerciais, inclusive do leite para crianças pequenas, influencia os pais e prejudica a saúde infantil.
Por isso, os governos precisam agir para proteger os pais desse marketing e priorizar a saúde das crianças em vez dos lucros.
Autoridades e defensores da saúde pública, incluindo nós, pedem restrições à divulgação - e não à venda - de todos os produtos de fórmula para bebês e crianças pequenas, desde o nascimento até os três anos de idade.
Idealmente, essas restrições de marketing deveriam ser obrigatórias e fiscalizadas pelo governo, em vez da autorregulação do setor atualmente adotada para fórmulas infantis.
Não devemos culpar os pais
As crianças pequenas estão consumindo mais alimentos processados, inclusive leite para crianças pequenas, do que nunca, porque pais com pouco tempo buscam uma opção prática para garantir que seus filhos recebam nutrição adequada.
Os fabricantes de fórmulas exploraram essa realidade e criaram demanda por um produto desnecessário.
Os pais querem fazer o melhor por suas crianças, mas precisam saber que o marketing dos leites para crianças pequenas é enganoso.
O leite para crianças pequenas é um produto desnecessário, pouco saudável e caro. Crianças pequenas precisam apenas de alimentos in natura ou minimamente processados e leite materno e/ou leite de vaca ou uma alternativa vegetal ao leite.
Se os pais estiverem preocupados com a alimentação de seus filhos, devem procurar um profissional de saúde.
Anthea Rhodes, pediatra do Royal Children's Hospital Melbourne e professora da Universidade de Melbourne, foi coautora deste artigo.
Jennifer McCann, professora de Ciências da Nutrição no Instituto de Atividade Física e Nutrição da Universidade Deakin; Karleen Gribble, professora associada adjunta da Escola de Enfermagem e Obstetrícia da Universidade Western Sydney; e Naomi Hull, doutoranda da Universidade de Sydney
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário