Nos últimos anos, os alimentos fermentados ganharam popularidade, em parte por seus supostos benefícios à saúde.
Há algumas evidências, por exemplo, de que consumir esses alimentos ou bebidas pode melhorar o controle da glicemia em pessoas com diabetes. Eles também podem reduzir os níveis de lipídios (gorduras) no sangue e a pressão arterial de pessoas com diabetes ou obesidade, além de aliviar sintomas de diarreia.
Mas será que eles ajudam a perder peso, como sugere um estudo recente? Veja o que dizem as evidências.
O que são alimentos fermentados?
Alimentos fermentados são preparados por meio da ação de microrganismos, como bactérias e/ou leveduras, que fermentam ou digerem componentes dos alimentos, formando novos produtos. Entre os exemplos estão iogurte, queijo, kefir, kombucha, vinho, cerveja, chucrute e kimchi.
A fermentação torna o alimento ácido e aumenta sua vida útil, pois os microrganismos que causam sua deterioração têm menos chance de crescer nessas condições. Por isso, ela está entre as formas mais antigas de processamento de alimentos.
O processo também leva à formação de novos nutrientes. Microrganismos benéficos, chamados probióticos, digerem nutrientes e outros componentes dos alimentos e produzem novas substâncias bioativas, os pós-bióticos. Acredita-se que esses pós-bióticos contribuam para os benefícios dos alimentos fermentados à saúde, juntamente com os benefícios das próprias bactérias.
O que dizem as evidências sobre alimentos fermentados e peso?
Um estudo publicado na semana passada apresentou evidências preliminares de que o consumo de kimchi, popular alimento fermentado coreano, está associado a um menor risco de obesidade em algumas situações. Os resultados, porém, foram variados.
A pesquisa sul-coreana envolveu 115.726 homens e mulheres de 40 a 69 anos, que informaram quanto kimchi haviam consumido no ano anterior. O financiamento veio do Instituto Mundial do Kimchi, especializado em pesquisar o prato nacional do país.
Entre os homens, o consumo diário de uma a três porções de qualquer tipo de kimchi foi associado a um risco menor de obesidade.
Homens que comiam mais de três porções diárias de kimchi de acelga, chamado baechu, tinham menor probabilidade de apresentar obesidade e obesidade abdominal, caracterizada pelo excesso de gordura ao redor da cintura. Nas mulheres, o consumo de duas a três porções diárias de baechu também foi associado a uma menor probabilidade dessas duas condições.
Já o maior consumo de kimchi de rabanete, conhecido como kkakdugi, foi associado a menor obesidade abdominal tanto em homens quanto em mulheres.
Por outro lado, as pessoas que consumiam cinco ou mais porções diárias de qualquer tipo de kimchi pesavam mais, tinham medidas de cintura maiores e apresentavam maior probabilidade de ter obesidade.
O estudo tinha limitações. Os autores reconheceram que o questionário utilizado pode dificultar a determinação exata da quantidade de kimchi que as pessoas realmente consumiram.
A pesquisa também dependia dos relatos dos participantes sobre seus hábitos alimentares anteriores, o que pode dificultar a lembrança precisa do que comeram.
Além disso, esse tipo de estudo permite identificar apenas se há uma associação entre dois fatores, no caso, kimchi e obesidade. Ele não pode mostrar se um causa o outro, ou seja, se o kimchi provoca perda de peso. Por isso, é importante examinar estudos experimentais nos quais pesquisadores alteram a alimentação das pessoas e depois avaliam os resultados.
O que mostram os estudos experimentais?
Diversos estudos experimentais investigaram quanto peso as pessoas perdem depois de consumir diferentes tipos de alimentos fermentados. Outros analisaram marcadores ou medidas de apetite, mas não a perda de peso.
Um estudo mostrou que o estômago de homens que beberam 1,4 litro de leite fermentado durante uma refeição demorou mais para esvaziar do que o daqueles que beberam a mesma quantidade de leite integral. Isso está relacionado a uma sensação de saciedade mais duradoura, que pode reduzir o apetite por mais comida.
Em outro estudo, beber 200 mililitros de kefir, o equivalente a um copo pequeno, reduziu o apetite dos participantes após a refeição. O efeito, porém, ocorreu apenas quando a refeição continha alimentos de digestão rápida, capazes de elevar a glicemia rapidamente. A pesquisa não mediu alterações de peso.
Outro estudo examinou jovens indonésias com obesidade. O consumo de tempeh, um produto de soja fermentada, provocou alterações em um hormônio ligado ao apetite. Isso, no entanto, não afetou o apetite nem a sensação de saciedade das participantes. O peso não foi medido nessa pesquisa.
Em um estudo na Coreia do Sul, participantes foram orientados a consumir cerca de 70 g diários de chungkookjang, uma preparação de soja fermentada. Nas mulheres, houve melhora em algumas medidas relacionadas à obesidade, incluindo percentual de gordura corporal, massa corporal magra, relação cintura-quadril e circunferência da cintura. Entretanto, não houve mudança no peso de homens ou mulheres.
Uma revisão sistemática de todos os estudos que analisaram o impacto dos alimentos fermentados sobre a saciedade, ou sensação de estar satisfeito, não encontrou efeito.
O que fazer?
Até agora, as evidências são muito fracas para apoiar ou recomendar o consumo de alimentos fermentados com o objetivo de perder peso. Os estudos experimentais tiveram curta duração, e muitos não relataram mudanças de peso.
Além disso, a maioria das pesquisas realizadas até o momento utilizou alimentos fermentados diferentes, o que dificulta generalizar os resultados para todos eles.
Ainda assim, esses alimentos podem fazer parte de uma alimentação saudável, variada e equilibrada, especialmente para quem gosta deles. São ricos em bactérias benéficas e nutrientes.
Há desvantagens?
Alguns alimentos fermentados, como kimchi e chucrute, recebem adição de sal. Segundo o estudo mais recente sobre kimchi, a quantidade média consumida pelos sul-coreanos fornece cerca de 490 mg de sal por dia. Para uma pessoa na Austrália, isso representaria aproximadamente 50% da meta alimentar sugerida para uma saúde ideal.
O consumo excessivo de sal aumenta o risco de pressão alta, doenças cardíacas e acidente vascular cerebral.
Evangeline Mantzioris, diretora do programa de Nutrição e Ciências dos Alimentos e nutricionista credenciada, Universidade do Sul da Austrália
Este artigo foi republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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